A Fase 2 Foi Sempre o Plano
Algumas empresas conquistam a sua reputação ao longo de décadas. Têm as pessoas certas, o produto certo e o tipo de credibilidade que leva anos a construir. E depois olhamos para o seu website e algo não bate certo.
É aí que esta história começa.
2020: Um Website Estragado e um Cliente Queimado
Em 2020, entrei numa chamada com a Hoser, uma empresa baseada no Chile. Representam a General Electric e outras grandes marcas em equipamento médico e materiais para a área da saúde. Fundada em 1985, no seu auge detinham cerca de 60% da quota de mercado no seu segmento. Uma empresa séria, com peso real na sua área.
O website mal funcionava. Uma instalação WordPress que tinha sido deixada ao abandono, desorganizada, sem funcionalidades essenciais, e que não fazia nada de útil pelo negócio.
Tinham também acabado de sair de uma agência de marketing. Não porque a relação tivesse terminado mal, propriamente. Mais porque, com o tempo, as reuniões iam ficando cada vez mais elaboradas e os resultados cada vez mais magros. Apresentações polidas. Capturas de ecrã de dashboards de analytics que ninguém conseguia verificar em tempo real. Aquele tipo de trabalho que parece produtivo até perguntarmos o que produziu de facto.
Por isso, estavam cépticos. Com razão.
Dei-lhes a minha leitura honesta da situação naquela primeira chamada. Sem pitch. Apenas: aqui está o que vejo, aqui está o que penso que precisa de acontecer, e aqui está a ordem pela qual o faria.
O Plano: Ordem Antes de Ambição
A primeira coisa que lhes disse foi que não precisavam de gastar muito dinheiro. O que precisavam era de ordem.
A sua infraestrutura digital era instável. Não se constrói sobre instabilidade e se espera que aguente. Por isso, o plano era simples na sequência, ainda que não na execução: estabilizar primeiro o website. Assim que isso estivesse sólido, acertar as configurações técnicas no Google Ads e no Google Analytics, não com promessas de resultados dramáticos, apenas com uma configuração adequada. A partir daí, começar a construir autoridade no Google Search Console. E começar a marcar presença de forma consistente no Instagram e no LinkedIn, não de modo agressivo, apenas de forma coerente.
Objetivos claros. Marcos atingíveis. Sem magia.
Disse-lhes também o que digo a todos os clientes nesta fase: não esperem ver resultados de um dia para o outro. Este tipo de trabalho leva pelo menos seis meses a aparecer nos números. Tinham de estar dispostos a confiar no processo.
E estavam.
Fase 1: Construir os Alicerces
Ao longo de três a quatro meses, construímos-lhes um website à medida, capaz de exibir todo o catálogo de equipamentos, vender materiais online, receber pedidos de informação sobre equipamentos e tratar do apoio ao cliente e dos pedidos de assistência técnica. Por trás disso, um painel administrativo totalmente personalizado para gerir produtos, equipamentos, vendas, pedidos, orçamentos, artigos, utilizadores, relatórios, ficheiros PDF de catálogo, e muito mais.
Ao mesmo tempo, configurámos corretamente o Google Analytics, definimos adequadamente os eventos de conversão no Google Ads, e ligámos tudo ao Google Search Console, para podermos efetivamente ver o que estava a funcionar e o que não estava.
Depois esperámos.
Não passivamente. Monitorizámos, ajustámos e mantivemos o cliente informado em cada passo. Mas não procurámos atalhos. O trabalho era o trabalho, e o trabalho precisava de tempo.
Aos seis meses, as coisas começaram a mexer. Aos doze meses, a direção era clara. No final dos primeiros dois anos, tínhamos mais de 1.500 impressões mensais e 65 cliques mensais no Search Console, um fluxo consistente de leads rastreáveis a chegar pelo website, e um registo mensurável de vendas online de materiais que antes não existia.
Estes números são modestos no papel. O contexto importa.
A Reunião que Mudou Tudo
Cerca de dois anos depois, pedi uma reunião com o proprietário, o diretor e o gestor.
Levei dois anos de dados. Não capturas de ecrã. Dashboards em direto, fontes rastreáveis, números verificáveis. Revimos tudo em conjunto: de onde vinha o tráfego, que páginas geravam pedidos, que leads convertiam em vendas, e o que o website tinha de facto produzido para o negócio.
O número que mais marcou foi o volume de vendas. Ao longo desses dois anos, os leads e as vendas gerados através do website e das redes sociais tinham tornado o custo original de todo o projeto quase insignificante. Não posso partilhar o valor real. Mas o rácio entre investimento e retorno andou perto de um para quinhentos.
Numa indústria em que um único equipamento médico pode custar tanto como um carro de luxo, podem fazer as contas.
Essa reunião correu muito bem.
Fase 2: O Plano que Eu Tinha Desde 2020
Depois dos números estarem em cima da mesa, apresentei a Fase 2.
Reconstruir o website do zero com uma stack moderna: rápido, seguro e construído sobre tecnologia que não estaria obsoleta dentro de cinco anos. Aumentar o investimento em redes sociais, não apenas posts e stories, mas verdadeira produção de conteúdo. Reels. Entrevistas. Alcance pago no Instagram e no LinkedIn.
E algo para o qual já vínhamos a preparar-nos há algum tempo: uma capacidade audiovisual a sério. Tínhamos começado a fazer trabalho básico de conteúdos de redes sociais para clientes mais pequenos, mas para este projeto fomos mais longe. Montámos uma equipa, investimos em câmaras e microfones, e começámos a deslocar-nos pessoalmente a congressos e conferências médicas para gravar stands, apresentações e entrevistas. Misturámos e masterizámos as imagens e publicámos em todos os seus canais sociais.
O cliente não hesitou. Os dados já tinham defendido o caso. Esta não foi uma conversa de vendas. Foi uma conversa sobre o próximo passo, e isso são coisas muito diferentes.
O Que a Fase 2 Produziu
No final de 2025, os resultados eram claros. As impressões e cliques no Search Console mais do que duplicaram. Chegavam pedidos tanto pelo website como pelas redes sociais. Profissionais de saúde criavam o seu próprio conteúdo e mencionavam a empresa, interagindo com a marca daquela forma que só se vê quando uma presença é genuinamente viva.
A Hoser não estava apenas visível. Fazia parte da conversa na sua indústria.
Nada disto foi acidental.
Sobre o Que Esta História Realmente Trata
A Fase 2 foi sempre o plano. Eu sabia disso em 2020, desde aquela primeira chamada.
Mas não se entra numa reunião com um cliente e diz-se "dê-me cinco anos e eu transformo o seu negócio". Esse direito ganha-se fazendo bem a Fase 1, registando tudo com honestidade, e deixando que os resultados façam o argumento. A reunião de 2022 funcionou porque os dados falaram antes de mim.
É para isto que serve o web consulting. Não para aparecer com uma proposta e uma promessa. Para aparecer com um diagnóstico, executar com paciência e construir o tipo de confiança que torna a fase seguinte possível.
Houve outra coisa que fez isto resultar e que ainda não mencionei. Desde o primeiro dia, o meu ponto de contacto foi sempre o mesmo gestor. Cinco anos, a mesma pessoa. Com o tempo, essa relação tornou-se algo mais próximo de uma parceria do que de uma relação cliente-fornecedor. Ele partilha feedback de dentro da empresa. Eu trago ideias de fora. Desenvolvemos o hábito de discutir novas oportunidades sempre que falamos, e a sua perspetiva moldou as nossas soluções de formas que eu sozinho não teria alcançado. O trabalho mais certeiro que alguma vez entregámos nasceu desse vai e vem. Nunca foi apenas a nossa execução de um plano. Foi uma colaboração.
Há empresas com pessoas excelentes e um produto a sério que estão exatamente onde merecem estar no mundo digital, porque alguém se sentou com elas, lhes disse a verdade, e teve a paciência de levar a coisa até ao fim. A Hoser é uma delas. Deviam existir mais.
Essa última parte não se fabrica. Só se conquista.
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